Irmãs triatletas contam como foi o Ironman do Havaí

Atualizado em 09 de novembro de 2016
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As irmãs curitibanas Luca e Yana Glaser participaram do Ironman do Havaí, em Kona, no início de outubro, e contaram os detalhes da prova. A competição começa no mar, com um trecho de natação de 3.800m, seguida por 180km de ciclismo e pelos 42km de corrida. Um Ironman exige muito preparo, e a competição no Havaí só conta com triatletas que conquistaram o índice ao longo do ano. As irmãs mostraram que nem dois pneus furados puderam conseguiram impedir que elas cruzassem a linha de chegada juntas.

Vencendo a ansiedade
O despertador tocou às 4h50. Estava marcado para sairmos do hotel às 5h30 para irmos andando (uns 500m) até o píer. Acordei e já era o dia de fazer mais um Ironman (o meu 6º). Que ansiedade!

A minha cabeça estava a mil e por ela passava a incerteza de um Ironman. A gente pede para que dê tudo certo e lida com a incerteza das condições climáticas de Kona. A ilha mágica nos surpreende com tudo, inclusive com seus ventos e calor. Mas o pensamento principal que reinava era: “como eu sou sortuda de estar aqui pela segunda vez e poder viver esse sonho de tantos atletas”. Esse pensamento me faria cruzar a linha de chegada a qualquer custo.

A caminhada é parecida com a do Ironman de Florianópolis. Aquele silêncio e a concentração que nos deixam ainda mais ansiosas e nervosas. Antes de entrar na transição, teve uma fila para a pintura do número e depois uma fila para pesagem. Acho que confundiram a modalidade esportiva e pensaram que era uma luta. Subi na balança, mas sem a menor curiosidade do número que deu.

No Mundial, o acesso às sacolas de transição é restrito. Como eu já sabia disso, deixei tudo pronto na sexta para não precisar mexer nela no pré-prova. Menos uma coisa para fazer no nervosismo. Fui colocar as garrafas e o bento box na bike, calibrar os pneus e pronto.

As brasileiras se acharam e ficamos aguardando a hora de cair na água.

Primeira parte: natação
A largada, além de ser de dentro da água, é uns 100m para frente do píer. Pela ansiedade, ficamos uns 10 minutos fazendo palmateio e boiando até ouvir o tiro do canhão. Como estava na largada geral do amador feminino, eu tinha chances de achar um boa bolha para nadar, e foi o que aconteceu.

Larguei forte, mas do lado direito; o grupo mais forte estava do outro lado. Como eu respiro para a direita, não via muito. Na metade da ida (era uma volta de 3.800m), eu saí da bolha em que estava e busquei um grupo que estava à frente, e ali fiquei.

Havia momentos confortáveis em que eu optava por continuar na bolha e momentos de estratégia em que eu mudava de pé e forçava o ritmo. Não foi uma natação fácil. No fim, chegando ao píer, parecia que o mar me puxava para trás. Cheguei a pedir permissão para sair do mar para ele mesmo. Saí com o tempo de 58min43s!

A T1 (transição da natação – ciclismo) foi muito rápida. Até me assustei com a sacola, só tinha a luva e o óculos de sol. Começaria, então, a parte mais longa da prova…

Segunda parte: ciclismo
Esse início do ciclismo de 10km, além de ser intenso, foi extremamente assustador. Eu estava pedalando travada demais, mas comecei a reparar que até os grandões que me passavam também estavam “lerdos”. Graças a Deus, no retorno o negócio fluiu e começou a prova.

O começo da Queen K foi bem “gostoso”. O técnico da minha irmã acompanhava o tempo e o vento e avisou que o final do ciclismo, pela previsão, seria muito difícil por conta do vento. Foi bom ter isso em mente, porque quando o vento estava a favor, eu aproveitava sabendo que mais para frente teria que ter paciência quando o vento virasse.

Mas o vento deu as caras antes, com 50km de prova. Eu me sentia bem, fazendo meu ritmo. Algumas brasileiras já haviam me passado nessa hora, e eu só estava esperando a Yana (minha irmã) me passar. A gente queria muito chegar juntas e, para esse plano dar certo, ela teria que passar no ciclismo para eu pegá-la na corrida. Mas nada dela aparecer.

Cheguei no retorno da bike perto das 3h de ciclismo. Vi que o dia seria longo. No retorno, com uns 5km ou menos, cruzei com a Yana. Então eu forcei o ritmo e aproveitei a descida e o vento a favor para ela me passar só mais para frente (se não eu teria que me matar para alcançá-la na corrida).

Com 144km de prova, furou o meu pneu. Quando eu falo que a prova foi desenhada por Deus, até isso estava no plano. Eu estava com uma roda de trás emprestada de um amigo que era clincher, ou seja, só precisava trocar a câmara. Como só faltavam 30km, gastei o pit-stop para ver se funcionaria e andei mais 3km.

Nada feito. Parei novamente e comecei a trocar a roda. Juro que não chorei nem fiquei nervosa. Acho que eu estava tão bem e tão feliz que nem o pneu furado me abalou. Nessa hora, a Yana passou e perguntou se eu precisava de algo. Pedi para ela seguir porque eu estava super bem e já tinha tudo o que eu precisava (caro engano).

 

 

Depois de uns 3 minutos parada, chegou o apoio da prova, para a minha sorte. O mecânico queria muito me ajudar e fazer tudo muito rápido, mas quanto mais rápido ele fazia, mais atrapalhado ele ficava. Enquanto um apoio segurava minha bike e conversava comigo, o mecânico se batia com o bico da câmara. Eu não levei prolongador para encher o pneu, santo apoio que parou! Ele trocou o pneu e eu fui sortuda, porque guardei o gás e a câmara extra (e eles seriam fundamentais mais para frente).

Faltavam 30km para terminar a bike. Eu estava feliz, andando bem, com a alimentação direitinha. Comecei a chegar nas mulheres que estavam andando comigo no Hawi. Um bom sinal, podia estar chegando na Yana.

Mas, no final da bike, faltando 2km para a transição, o pneu furou de novo. Não tinha mais pit-stop e pensei em 3 opções:

1 – Ir pedalando com ele furado: até tentei, mas a roda não era minha. Morri de medo de quebrar o carbono, entortar a roda. Opção excluída.
2 – Ir correndo, o que são 2 km? Desisti quando vi que estava descalça, que o chão estava fervendo e ao calcular que no total seriam 44km de corrida. Sem chance.
3- Opção escolhida foi parar com toda a calma do mundo e trocar o pneu.

Nessa hora, apesar de eu estar na frete de um posto de hidratação da corrida e ter gente por perto, ninguém veio me ajudar. Mas troquei bem mais rápido que o mecânico e o agradeci imensamente quando vi que tinha deixado o prolongador.

Pneu trocado, hora de já pensar na corrida. Quando estava entrando no funil da transição, a Yana estava saindo para correr. Fiquei bem feliz. Fiz a transição com calma, passei protetor, peguei as comidinhas, tomei um pozinho mágico com eletrolitos e bora correr.

Terceira e última parte: corrida
Nada como colocar os pés no chão após 180km de bike. Saí para correr bem, em um ritmo de 5min30/km. A galera já falava que a Yana estava um pouco na frente. Eu sabia que era só chegar nela para curtirmos o fim da prova juntas e cruzarmos a linha de chegada do Ironman do Havaí de mãos dadas.

O sonho mais perfeito que podíamos ter imaginado. Antes mesmo do retorno da Alii Drive, cheguei nela fazendo um cumprimento de irmãs. Ali eu fiquei e seguimos o restante da maratona juntas. Correndo confortável e andando em todos os postos de hidratação. Conversando, torcendo para o pessoal que conhecíamos, reclamando algumas horas, já pensando na nossa chegada e desejando cada posto de hidratação.

Aceitamos que naquela hora éramos gêmeas. A torcida nos incentivava e dizia que estávamos fazendo um “Good Job”! Caçávamos fotógrafos para registrar esse momento e quando pensávamos no que estávamos vivendo começávamos a chorar.

Vimos o por-do-sol no Energy Lab, que foi a coisa mais linda do mundo. Pegamos a Queen K escura, ficamos com medo de torcer o pé por não conseguir enxergar nada.

No final, começamos a nos empolgar e a aumentar o ritmo, mas com a prova nas costas sentíamos que era desnecessário. Chegaríamos 3 minutos mais rápido e mais quebradas.

Seguimos, então, no ritmo anterior, nos preparando para a chegada. A Yana queria chegar abraçada, mas eu a convenci que não seria uma boa ideia, certamente iríamos cair no tapete de chegada com o mundo nos assistindo.

Quando viramos na Alii Drive a emoção tomou conta. Agarrei na mão da Yana e só soltei depois do pórtico. Foi um dos momentos mais mágicos que eu poderia ter vivido.

Parciais:
Natação: 58min43s
Ciclismo: 6h26min04s
Corrida: 4h42min39s
Total: 12h14min52s

Eu e a Yana conseguimos sair com o mesmo resultado, batemos o pé no mesmo tempo. Batemos, também, nosso recorde mundial pessoal de Ironman mais lerdo, mas o mais especial!