Controle seu pace pelas marcações da prova - e não pelo GPS

Atualizado em 20 de setembro de 2016
Mais em Notícias

por Wagner Araújo

Eu já vi acontecer diversas vezes: o atleta controla seu ritmo pelo GPS, esperando alcançar a sua meta e, faltando 200, 300 e até mesmo 500m para a chegada e seu relógio já marca a distância da prova. Com isso, o atleta acaba não alcançando a meta, embora o equipamento mostre o contrário. A única forma de acabar com esse problema é acostumando-se a marcar as distâncias no chão, nas placas da prova.

Digamos, por exemplo, que você quer fazer um 10km abaixo de 40 minutos, o que significa 4’/km. Você deve traçar sua estratégia de ritmo com base nesse pace. O que acontece, quase que 100% das vezes, é que os relógios GPS atingem a marca de 10km antes da de linha de chegada da prova em si. É claro que, em algumas vezes, a marcação da prova está errada, mas na grande maioria das vezes, a marcação está certa, pois foi feita pelo chão, considerando todas as tangentes. Pode não parecer, mas essas tangentes fazem uma ENORME diferença no resultado final.

Mesmo que a marcação esteja errada, nós temos um lema aqui no Blog: “Nunca reclame do seu GPS!” Muitos corredores sérios só correm de relógio e olhe lá! Não vale a pena discutir se a prova tinha 10,1 ou 9,9km, para efeitos práticos, a prova tinha 10km! Assim, a única forma de controlar o ritmo corretamente e chegar a seus objetivos é marcando no chão, com lap manual a cada km. Conheço um corredor que perdeu o sub 3h em uma major por acreditar mais no relógio do que na prova! E olha que estamos falando de uma maratona major, com todo o rigor da IAAF (Federação Internacional de Atletismo). Seu relógio mostrava um ritmo de 4’15”/km, enquanto, na verdade, era 4’17”. Não preciso nem relatar o fim da história aqui, uma frustação enorme por menos de um minuto.

gps

Por que o GPS erra?

A origem do erro do sistema GPS remonta à guerra fria. Quando o Departamento de Defesa dos Estados Unidos criou o sistema, na década de 70, tinham o temor do mesmo ser utilizado para atingir alvos específicos, mas por seus inimigos. O Global Positioning System permitiu que qualquer ponto na Terra fosse identificado por meio de satélites, 24 ao todo nos dias atuais. Esse número permite que, em qualquer lugar do globo, 4 satélites estejam visíveis para gerar a localização.

Até os anos 2000, havia um erro introduzido deliberadamente pelo governo americano de até 90 metros em cada medição. Embora esse erro tenha sido eliminado, há outras fontes de erro. A principal delas é o erro no horário do receptor, o que é especialmente falho nos pequenos dispositivos que carregamos correndo. Nos satélites, há sistemas com relógio atômicos, que medem o tempo com precisão, levando em consideração os efeitos da teoria da relatividade de Einstein. O tempo dos satélites é, por definição, diferente do tempo aqui na terra, já que a velocidade dele é diferente da nossa, dada a sua órbita ao redor da Terra.

Além do fator tempo, condições naturais, especialmente atmosféricas, causam grande impacto na qualidade do sinal e, consequentemente, na precisão do sistema. Há interferências artificiais ainda de outros dispositivos, sistemas e construções, além de influências do relevo natural. Subidas e descidas podem “enganar” o GPS, especialmente nos dispositivos sem medição barométrica. Por exemplo, na maratona de Porto Alegre, meu Garmin 920XT (com medição barométrica), marcou uma elevação de 123m ao longo dos 42,195km. O da minha esposa, um 910XT (sem medição barométrica), marcou 251m. Ao fim da prova, sua medição deu quase 400m a mais que a maratona (200m a mais que o meu).

Considerando tudo isso, podemos considerar os erros do GPS bem pequenos, mas não para nós corredores. Imagine que, em uma maratona, seu GPS marque 42.395, 200m a mais do que a distância real. Trata-se de um erro de apenas 0,47%. Quase nada? Não! Esses 200m são equivalentes de 30 seg a um minuto no seu tempo final! Se você estiver a 4’/km são, exatamente, 48 segundos a mais. Esse pequeno erro pode fazer toda a diferença quando estamos correndo no limite para alcançar uma meta, seja ela qual for. Para um atleta que pretende correr a maratona, digamos, abaixo de 4h, esse erro implica em mais de um minuto.

É frustrante entrar no funil de chegada e descobrir que ainda falta 100m, 200m, 400m… Por isso, eu insisto, os corredores devem marcar seus tempos, em provas, no chão. E isso é muito fácil de fazer.

Como marcar seus tempos e parciais em provas

Em competições, a regra é simples, desligue o lap automático e marque as parciais no chão, com as marcações da prova. É chato, sim, mas o único jeito de ter uma estimativa real do seu tempo final NA PROVA. Caso a competição tenha algum km maior ou menor do que a realidade, a medição levará em conta isso e você poderá ajustar o ritmo. Caso a prova esteja na distância certa e seu GPS errado (o que é mais provável), você terá a real noção do seu pace na prova.

Para que essa estratégia funcione, você precisa ter parciais gravadas ou anotadas no braço para comparar com seu tempo no relógio. Vamos imaginar nosso exemplo do corredor que deseja correr os 10km em 40 minutos cravados. Se a estratégia dele for manter o mesmo ritmo do início ao fim, ele pode estabelecer parciais para ajuda-lo na marcação dos laps manuais. Por exemplo, ele pode estabelecer checkpoints no km3, 6 e 9. Assim, as passagens seriam 12 minutos, 24 minutos e 36 minutos. Esse método tem uma outra vantagem. Caso seu GPS dê pane geral (acredite isso vai acontecer algum dia), basta o cronômetro para ter uma boa marcação de prova para controle de ritmo. Na verdade, qualquer relógio simples com cronômetro pode resolver seu problema.

Se você for bom de matemática, pode ir calculando durante a prova, o que fica bem difícil quando se corre no limite, especialmente porque não estamos falando de números centesimais, mas de múltiplos de 60. Na Maratona de Porto Alegre 2016, estabeleci parciais nos km 5, 10, 21, 30, 32, 37 e 41. Assim, consegui monitorar com precisão meu pace para alcançar o sub-3h. No meu GS, a distância total foi 180m a mais. Se tivesse confiado nele teria perdido a minha meta.

Aplicando a medição manual no treino

Eu gosto de fazer alguns treinos em locais marcados, como pistas ou na rua mesmo. Muitos dos locais usuais são marcados pelos próprios corredores. Tenho realizado somente os treinos longos usando o GPS como guia. Nos treinos de ritmo, intervalos e tiros, uso a marcação no chão e o lap manual, assim tenho uma estimativa melhor do meu ritmo real, normalmente não tão bom quanto o apresentado pelo GPS. Não se iluda com o ritmo do GPS nos treinos se quiser atingir seus objetivos nas provas.

O Glonass

O Glonass é o sistema de posicionamento russo, análogo ao GPS norte-americano. Os relógios de treino mais modernos já vêm com a opção de utilizar o Glonass em paralelo com o GPS. Ainda não vi muitos estudos e análises comparando os dois sistemas. Ao ativar o Glonass, a bateria do dispositivo, no meu caso um Garmin 920XT, é consumida bem mais rápido. Em vários testes nos treinos, percebi que os dois juntos dão uma medição bem acurada em trechos retos e sem subida.

Aprenda a treinar observando os pequenos detalhes e não deixe que um GPS tire de você o tão esperado objetivo.

Post originalmente publicado no blog O Passo Adiante