Florence Kiplagat: esperança dourada

Atualizado em 29 de junho de 2017
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Por Adalberto Leister Filho

Não é fácil vencer no atletismo do Quênia. Principalmente se você for mulher. Essa lição foi bem aprendida por Florence Kiplagat, 27, que em fevereiro, em Barcelona (Espanha), bateu o recorde mundial da meia-maratona. “Fico sempre feliz quando vejo mulheres fazendo esporte. É importante, para nós, nos desenvolvermos, para nos tornarmos independentes e fortes. Espero, no futuro, incentivar mais e mais mulheres a começar a correr e a se aprimorar”, afirma a corredora em entrevista à revista O2.

Contraditoriamente, foi um homem, em um país tão machista, quem apoiou seu desejo de conquistas. O tio de Florence, William Kiplagat, foi um fundista de algum sucesso internacional na década passada. Venceu as maratonas de Roterdã 2003 e Seul 2005, porém sem nunca conquistar uma vaga olímpica. “Foi ele quem me encorajou a começar a treinar. Ele acreditou no meu potencial”, agradece Florence. Após estabelecer o novo recorde mundial da meia-maratona, a queniana Florence Kiplagat sonha em conquistar uma medalha de ouro no Brasil.

Início
A fundista despontou no nível internacional ao passar pelo difícil vestibular por uma vaga na equipe queniana que foi ao Campeonato Mundial júnior de Pequim, na China, em 2006. “Quando ganhei a medalha de prata nos 5.000 metros tive certeza de que poderia levar a sério o esporte e ter um futuro no atletismo”, conta ela, referindo-se à edição que também revelou nomes como David Rudisha (recordista mundial dos 800 metros) e Yohan Blake (campeão olímpico do 4 x 100 metros em Londres 2012).

Ainda nas pistas, Florence bateu o recorde queniano dos 10.000 metros em 2009, ao superar a distância em 30min11s53. No ano seguinte, porém, a corredora decidiu focar no calendário de provas de rua, mais rentável. Decisão acertada. Em 2010, ela conquistou o Mundial de Meia-Maratona, em Nanning, na China. Era apenas a segunda vez na vida que disputava uma prova na distância.

Novo triunfo importante veio no ano seguinte: ela venceu a concorrida Maratona de Berlim. Com o tempo de 2h19min44s, tornou-se a quinta mulher a cumprir o percurso em menos de 140 minutos. No mesmo evento, seu compatriota, Patrick Makau, bateu o recorde mundial da prova masculina. Triunfou também na Meia-Maratona de Roma, com o tempo de 1h06min38s, o melhor da carreira até então e o terceiro mais rápido da história.

Fracasso
Dividida entre conseguir uma vaga olímpica na rua ou na pista, Florence falhou em ambas. Na Maratona de Londres, em abril de 2012, chegou em quarto lugar. As três quenianas que ficaram à sua frente na competição (Mary Keitany, Edna Kiplagat e Priscah Jeptoo) foram as escolhidas para integrar o time queniano nos Jogos. Todas fracassaram na tentativa de trazer o primeiro ouro olímpico para o Quênia na maratona feminina.

Florence, por sua vez, tentou a classificação nos 10.000 metros. Ela até que foi bem, ao correr em 30min24s85 a distância no tradicional meeting Prefontaine, em Eugene (Estados Unidos). Mas, na seletiva do país, novo insucesso, com o quarto lugar. “Nada vem facilmente. Tudo depende de um trabalho duro. Às vezes vem um resultado maravilhoso depois de treinamentos pesados, às vezes não”, pondera a corredora.

Novos objetivos
Para o novo ciclo olímpico, Florence decidiu direcionar os treinamentos apenas para provas de rua. Seu retorno foi triunfal. Ela venceu a Maratona de Berlim em 2013, em prova que, por coincidência, mais um compatriota bateu o recorde mundial: Wilson Kipsang.

Treinada pelo italiano Renato Canova, guru da maioria dos fundistas do país, a queniana alia treinos duros com uma qualidade tipicamente feminina: a intuição.

“Meu técnico me ajuda muito com seus conselhos. Sempre fazemos o programa de treinamentos de acordo com minha percepção naquele período. Não acredito que haja um programa perfeito de preparação. É importante ouvir seu corpo, acreditar em você e cumprir direito o programa de treinamento”,
explica a atleta.

Na história
Intuição e preparo físico invejável foram as qualidades da fundista para a obtenção de sua maior façanha: o recorde mundial da meia-maratona, em Barcelona. “Desde novembro, tinha grande esperança de correr rápido a prova. Meu agente [o holandês Jos Hermens] me disse que era uma corrida agradável, com um percurso rápido e torcida empolgada”, conta ela.

O clima de fato ajudou. A temperatura média da prova foi de 13°C, e quase não houve vento para atrapalhar. “Você nunca pode prever um recorde mundial, mas minha preparação foi boa. Então, eu sabia que, se tudo desse certo no dia, havia possibilidade de superar o recorde”, diz, modesta.

Para dizimar a antiga marca, foi feita uma preparação detalhada. Florence teve o ritmo das passadas marcado por seus dois coelhos, Marc Roig e Stanley Siroro. Apesar disso, a queniana finalizou os primeiros 10 km em 31min08s, o que ainda representava 23 segundos atrás da marca da compatriota Mary Keitany. O ritmo se intensificou no km 15, encerrado em 46min35s, ou 5 segundos à frente do recorde de Keitany e apenas 7 segundos atrás do melhor tempo na distância, em poder da etíope Tiruneshi Dibaba.

O feito nas ruas da Catalunha já era questão de minutos quando terminou os 20 km em 1h01min56s. Ela já era 40 segundos mais rápida do que Keitany. Foi só manter o ritmo para terminar em 1h05min12s. Era a primeira vez que Barcelona, sede da Olimpíada de 1992, via um recorde mundial ser quebrado em suas ruas. Sinal dos tempos, à frente de Florence ficaram apenas os três primeiros colocados da prova masculina: os quenianos Eliud Kipchoge, campeão mundial dos 5.000 metros em Paris 2003, Laban Mutai e Peter Emase.

“Tive a sensação de que poderia ser um dia especial. Mas não esperava um tempo tão rápido. Tudo o que queria fazer era uma boa corrida, em bom ritmo, como preparação para a Maratona de Londres”, contou ela, que ficaria com o vice-campeonato na prova inglesa, atrás de Edna Kiplagat, bicampeã mundial da prova, que não é sua parente.

Com tanta evolução, é possível que, no futuro, as mulheres consigam correr a meia-maratona em tempos inferiores a 1 hora? “Acredito que minha marca atual é competitiva para a meia-maratona feminina. Creio que tempos inferiores a 64 minutos serão possíveis no futuro, mas acho que não muito mais rápido do que isso”, afirma ela, cética.

Rio 2016
Após a frustração olímpica em Londres 2012, tudo o que Florence mais quer é garantir um lugar na Olimpíada do Brasil, daqui a dois anos. “Quero focar em vencer algumas das principais maratonas do calendário, melhorando meus tempos na distância”, afirma ela, para logo depois admitir: “Mas, claro, a Olimpíada do Rio é o grande objetivo que já está na minha cabeça. Eu preciso ganhar uma medalha!”

Mesmo tendo de enfrentar uma duríssima seletiva, ela afirma ter muita vontade de conhecer o Rio de Janeiro, e quer vir para cá antes dos Jogos Olímpicos. “Sei de muitas histórias de que o Brasil é um país muito agradável. Se não tiver a chance de ir antes, estarei no seu país em 2016 para os Jogos Olímpicos. Espero que a torcida ajude a alcançar meu objetivo, me apoiando nos momentos mais duros da maratona”, afirma ela. “Vejo vocês no Brasil!”, promete.

Obstáculos
Para as mulheres, é mais complicado triunfar no atletismo do Quênia. Desde cedo, as meninas descobrem que as atenções de público e de patrocinadores estão voltadas aos homens, que ainda gozam de melhor infraestrutura para treinar e competir. Tal privilégio é refletido nos números: as mulheres são responsáveis por apenas 16,5% das medalhas olímpicas e só 8,3% dos ouros conquistados pelo atletismo queniano na história. No entanto, isso está mudando. Nas duas últimas edições dos Jogos Olímpicos (Pequim 2008 e Londres 2012), as quenianas ganharam nove medalhas (dois ouros, seis pratas e um bronze), ou 69% do total obtido pelas mulheres do país em 46 anos de participações olímpicas.