Da emoção à lesão na corrida de rua

Atualizado em 05 de agosto de 2016
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Por Thaís Ferreira

Muitas de nós, mulheres, até nos imaginamos verdadeiras máquinas, com risco mínimo de pifar. Mas, na real, não é bem assim. Quando a engrenagem “cabeça” dá sinais de falha, outras peças do corpo levam junto o baque. Daí descontar a ira, a ansiedade, o estresse ou a frustração no treino de corrida, extrapolando os limites físicos, é furada. Talvez você não conecte uma coisa à outra, mas, quando males como depressão, ansiedade e estresse aparecem, o corpo também padece. Nas pistas, seja por descarga de adrenalina ou por perda de ritmo e concentração, as corredoras, não raro, acabam sofrendo com fadiga intensa, menor tolerância à sobrecarga, lesões musculares e até apatia no esporte. Cuidar da mente e desacelerar o passo, portanto, é preciso.

Baixo estoque de energia
Para traçar bem o treinamento, entenda antes seu corpo por dentro. Aquela ansiedade insistente, por exemplo, gera a liberação de hormônios e neurotransmissores que causam, entre outras alterações fisiológicas, o aumento da frequência cardíaca, além de provocar um cansaço danado, atrapalhar o gasto energético e até influenciar na respiração da atleta. “As ansiosas sofrem uma aceleração do metabolismo e maior oxigenação do corpo, que não é aproveitada pela musculatura para o exercício. Esse desperdício de energia acaba sendo prejudicial para as corridas”, alerta o médico Pablius Staduto Braga. Além desse golpe, pode haver acúmulo de substâncias vasoconstritoras. Péssima notícia: o músculo precisa exatamente do contrário, de vasodilatação, para que químicos como sódio e potássio circulem livremente pelas vias.

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Tensão potencial máxima
Além da ansiedade, outros estados psicológicos como estresse ou depressão são ainda culpados por diagnósticos de tensão, refletida imediatamente na musculatura, que se retesa também. Isso faz com que o músculo fique duro e encurtado, dificultando seu trabalho de contração e distensão durante o exercício. Algumas das áreas do corpo mais afetadas nesses episódios são as pernas (ainda mais em mulheres que passam horas do dia sentadas), a coluna lombar e a cervical. Nesses casos, o alongamento não traz melhoras e pode, inclusive, prejudicar a fibra muscular. Nunca tente colocar o músculo no lugar de uma só vez ou sobrecarregálo com a carga habitual de exercícios. A solução é tentar poupar esses grupos, espaçando os treinos na semana ou dosando a intensidade.

Depressão nos resultados
“Pacientes depressivas apresentam ainda bastante queixa articular, além de doenças no ombro, como as tendinites e a síndrome do ombro congelado, a chamada capsulite adesiva [cuja dor pode se estender até o pescoço e a coluna”, explica o ortopedista Marcello Serrão. A concentração da corredora também é passada para trás. Dispersa, ela passa a executar mal os movimentos esportivos e a dar chances para as torções. “A corrida é uma atividade mental. A atenção, portanto, é necessária para controlar a velocidade e o percurso, além de medir a força versus trajeto. Se a atleta se distrair, pode acelerar muito no começo de uma prova, entrar logo em fadiga e não completar os quilômetros”, afirma o médico.

Equilíbrio em queda livre
É fato, mulher estressada tem insônia terminal. Ou seja, acorda durante a noite e não prega mais os olhos. A cilada aqui está na falta de qualidade do sono, que multiplica as chances de lesões devido à fadiga muscular. Isso acontece porque o músculo precisa de eletrólitos, substâncias químicas que participam dos movimentos de contração e distensão, que são justamente repostos na hora do descanso. A cãibra, por exemplo, é uma fadiga química. Tem mais: em períodos de estresse, quando as pessoas desenvolvem reações emocionais negativas, é mais provável que surjam quebras significativas do equilíbrio homeostático, responsável por alterações na saúde da atleta. Portanto, o sistema imunológico pode vacilar e as infecções por vírus oportunistas aparecerem. Mais um golpe baixo na sua performance!

Seu corpo sob seguro
Como se vê, o treinamento do controle emocional é tão essencial quanto o treinamento técnico nas pistas. Ninguém duvida mais que uma atleta pode estar no auge da forma física e não render o esperado, graças a fatores que estão bem além dos quilômetros percorridos. Também vale combinar a corrida com outra modalidade, em um cross training, para se trabalhar diferentes competências. Atividades que privilegiam técnicas de respiração, como ioga, pilates e natação, são bem-vindas. Ao melhorar a oxigenação do cérebro, estimulam-se a concentração e o melhor controle das emoções. Mas está proibido depositar no esporte toda a esperança de recuperação. Com essa atitude, você pode ultrapassar seus limites físicos e só conseguir mais motivos para chorar.

Feitiço contra a feiticeira
Quando a cabeça deixa de dar conta das expectativas e projeções no esporte, a síndrome do overtraining (excesso detreinamento) pode atacar. Ela dá as caras quando a atleta sinaliza ir além do que seu corpo permite. Além de encrencas físicas, como dores por todo o corpo, irritabilidade, insônia, fadiga e apatia são exemplos clássicos de distúrbios psicológicos. “Autocobrança e competitividade servem para alavancar marcas e performances pessoais de maneira eficiente, mas deve-se observar o fato de que tais metas sejam realmente coerentes para que não ocasionem o overtraining”, ressalta o educador físico Flavio Dezan. Treine já sua mente!

(Fontes: Marcello Serrão é médico especialista em cirurgia de joelho, membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho e diretor do Centro Ortopédico Orto-Plus, do Rio de Janeiro; Flavio Dezan é educador físico, especialista em psicologia do esporte, mestre em desenvolvimento humano e tecnologias e membro do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Rio Claro); e Pablius Staduto Braga é médico especializado em medicina do esporte pela Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE ) e em reumatologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e coordenador do Centro de Referência em Medicina do Exercício e do Esporte no Hospital 9 de Julho, de São Paulo)

(Matéria publicada na Revista O2 – edição #115 – novembro de 2011)