Biomecânica da corrida

Atualizado em 29 de abril de 2016
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Os corredores mais experientes já sabem: uma ótima mecânica de movimento, além de poupar energia, melhora o desempenho e, principalmente, diminui a incidência das lesões por prática de atividades repetitivas, que é o caso da corrida de fundo. Porém, se você parar para observar por determinado período de tempo um local onde exista um grande número de pessoas praticando a corrida, ficará surpreso com a quantidade de adeptos que não têm uma boa eficiência mecânica de movimento.

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Isso se deve a diversos fatores, tais como pouca força muscular de sustentação e transferência de movimento, encurtamento ou baixa flexibilidade musculares, baixa coordenação de movimentos (tanto globais como específicos), entre outros.

Vale lembrar que existe um padrão ideal de movimento para a corrida — e cada corredor deve, dentro de suas limitações, tentar se aproximar dele. Fatores genéticos são, sim, determinantes em uma boa mecânica, mas não podemos nos acomodar e negligenciar os fatores não genéticos, que podem e devem ser trabalhados.

Correr é um padrão global de deslocamento, com coordenação de membros inferiores e superiores, que faz do equilíbrio fator determinante. Estudos comparando corredores de elite de maratona africanos e norte-americanos mostraram que os primeiros possuem uma biomecânica apurada, determinada em sua genética. O destaque desses corredores se dá nos quesitos de transferência de movimento, fazendo com que mantenham sempre uma inércia melhor, assim como ângulos articulares mais propícios do que os norte-americanos.

Para se ter uma ideia do que isso pode significar, a diferença do gasto energético dos africanos para correr uma maratona é o equivalente ao atleta americano ter que subir correndo toda a escadaria do Empire State Building, famoso arranha-céu de Nova York, a mais que seus adversários africanos. Ou seja, eles têm de fazer uma força maior para produzir o mesmo ou quase o mesmo trabalho, já que seus níveis de performance e resultados são pouco diferentes.

A primeira coisa que deve ser feita em busca da melhora da biomecânica é uma avaliação da qualidade do movimento do corredor. A partir daí, o treinador deve interpretar quais fatores devem ser trabalhados para se obter a melhora. Exercícios de aprimoramento da condição muscular geral, por meio da musculação, assim como trabalhos específicos de aplicação de força nos movimentos da corrida são fundamentais. Melhorar a flexibilidade geral e a da cadeia de músculos posteriores também ajuda.

Além disso, trabalhos de coordenação motora geral e específicade movimentos pertinentes à corrida são determinantes na evolução. Muitos corredores não gostam de fazer exercícios específicos de técnica por vergonha de expor sua falta de coordenação. Mas é melhor deixar a vergonha de lado se você busca aumento da sua mecânica de corrida.

Um ótimo padrão de movimento é aquele que se adequa melhor às suas possibilidades e que respeita as suas limitações. É essencial ter um bom padrão para evitar lesões, melhorar a performance e, consequentemente, ser um corredor mais feliz.

Marcello Butenas
www.butenas.com.br 
Diretor técnico da Butenas Assessoria Esportiva, atleta profissional de triathlon até 1996 e atleta amador até hoje

Reportagem publicada na edição 132, de abril de 2014, da revista O2