Solonei: ex-lixeiro que correrá a Rio-2016

Atualizado em 30 de maio de 2017

Até outubro de 2009, Solonei Rocha da Silva ainda trabalhava como coletor de lixo em Penápolis (SP). Hoje corredor de altíssimo nível, prepara-se para realizar um sonho que não tinha até 2011, quando soube o que era disputar os Jogos Pan-Americanos. Essa realização é, logicamente, a participação na Olimpíada. O persistente penapolense é o segundo personagem da série de matérias que enfocam trabalhadores capazes de alcançar grandes resultados em corridas.

Não são raros, na história, casos de corredores que conquistaram glórias esportivas conciliando treinos com rotinas de trabalho pesado. O argentino Delfo Cabrera, campeão olímpico em Londres-1948, por exemplo, era bombeiro. Mas ninguém teve uma motivação mais singela do que a de Solonei, que entrou numa prova, em sua cidade, com o objetivo de ganhar um prêmio de R$ 100 para comprar talheres.

A inserção de Solonei no mundo das corridas se deu a partir de um sonho da mulher, que o fez acordar assustado, com um cutucão, num domingo pela manhã. Ela havia sonhado que ele venceria a Corrida de Pedestres de São Francisco de Assis, tradicional evento local. Dias antes, ele apresentara à esposa essa ideia meio doida, de tentar ganhar um dos prêmios reservados aos corredores nascidos na cidade.

O casal ia sair da residência dos pais de Solonei para uma casa alugada. A duras penas, já tinham comprado jogo de sofá, geladeira, fogão, panelas. Faltavam apenas alguns detalhes, como talheres e alguns utensílios para cozinha, mas já não restava um tostão no apertado orçamento. “Ela me deu uma bronca, disse que eu era maluco, que só jogava bola e não teria nenhuma condição de derrotar os caras que treinavam para correr”.

O sonho injetou confiança no coletor de lixo, que vestiu às pressas o calção que usava para jogar bola e um tênis de passeio. Só havia um problema: “era prova de 10km, nunca tinha corrido essa distância. Fazia dois anos que não corria, só jogava futebol. Fui lá ver no que dava, e não é que ela acertou? Foi um sonho iluminado. Ganhei R$ 100, o prêmio para o terceiro melhor penapolense, e comprei os talheres. Sobrou um pouco ainda para os pratos e os copos”, disse o fundista, que teve até uma certa facilidade para alcançar o resultado – chegou a parar para fazer um inadiável xixi durante o percurso.

A única experiência prévia em corridas havia sido a primeira corrida Yasunaga, num trajeto de 3,3km em torno do curtume onde trabalhava, também em Penápolis. Naquela ocasião, enfrentou o asfalto de um jeito ainda mais rústico: correu com chuteiras, os únicos calçados esportivos de que dispunha, e no dia seguinte sentiu dores que o impediram de trabalhar.

Sempre interessado em reduzir o aperto financeiro, Solonei viu nas corridas uma bela fonte de renda. “Aquela corrida de São Francisco me despertou a curiosidade para saber como funcionava a corrida de rua, se dava para ganhar um dinheiro. Eu queria construir uma casa na época. Rolou de eu começar a ganhar uma grana, em provas no interior de São Paulo”.

Nesse momento, a história de Solonei se cruza com a de Marcelo Rocha, o carteiro cuja história abriu esta série de perfis. Rocha, que morava na próxima Tupã, conheceu Solonei e passou a orientá-lo sobre as melhores provas para correr, os prêmios oferecidos, o beabá do circuito interiorano das corridas. “Com o dinheiro dos prêmios, comecei a comprar cimento, bloco, fui fazendo minha casa. Fui treinando, ganhando experiência, passei a vencer cada vez mais. Esse trabalho se juntou à coleta de lixo, que tava me dando uma preparação de força sem querer, porque ficava correndo com saco de lixo na mão, pulando e descendo do caminhão a todo momento. Tava fazendo um trabalho de força e resistência sem querer. Conquistei muitos títulos, tenho troféu na casa da minha mãe a dar com pau”.

Em 2009, Solonei foi aprovado num teste para integrar a hoje extinta equipe Rede de Atletismo, de Bragança Paulista. Porém, como não conseguiu uma licença não remunerada para preservar a vaga de coletor de lixo, conquistada em concurso público, adiou o projeto por um ano. Depois de muita insistência, o corredor ganhou o apoio do prefeito de Penápolis, que lhe garantiu que poderia retomar seu trabalho caso a aventura nas corridas não desse certo.

Não foi preciso. Com apenas quatro meses de preparo, venceu a Maratona de Porto Alegre de 2010. No ano seguinte, correu a Maratona de Pádua, na Itália, em 2h11min32, o que significou índice para correr os 42,195km dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara.

Enfrentando o forte sol que bate no estado de Jalisco, o penapolense venceu (2h16min37) e percebeu que poderia sonhar ainda mais alto. “Eu me vi em Guadalajara sendo ovacionado por um povo que não é o meu. Disse pra mim mesmo: ‘caramba, bicho. Agora só depende de mim’. Senti o gostinho de andar numa Vila Pan-Americana, de voltar para o Brasil e ver todo o mundo tirando foto comigo. Até dois anos atrás, eu tava coletando lixo. Eu só sonhava ter um trabalho no atletismo, dar um futuro melhor pra minha família em termos financeiros. Tudo o que eu queria era pagar minhas contas, ganhar uma grana numa Maratona de São Paulo, que não paga mal…Pra quem ganhou R$ 100 por ter vencido uma Meia-Maratona em Araçatuba, não estava ruim”.

No ano passado, Solonei ficou entre os 20 melhores na Maratona de Pequim, vencendo as altas temperaturas e muita poluição. Naquelas condições, o tempo pode até ser avaliado como satisfatório (2h19min19). “A poluição era demais, era como se estivesse correndo no meio dos carros da Marginal, com o calor das 13h”.

Depois de superar tantas adversidades, Solonei não quer que o classifiquem como carta fora do baralho de antemão. “No Rio a prova é aberta. Nos comentários, já estão dando a medalha de ouro pro queniano (Eliud Kipchoge) que ficou a oito segundos do recorde mundial na Maratona de Londres. Menos, menos. Respeitem a história dos outros atletas. Respeitem o treinamento sagrado, diário de cada atleta. É durante a prova que vão se decidir as medalhas”, diz Solonei, sem querer acordar do sonho de sua mulher.