Paratleta pensa em eutanásia após o Rio 2016

Atualizado em 30 de maio de 2017
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Com frequência, a atleta paralímpica belga Marieke Vevoort acorda com lambidas de seu cachorro. Muitos dos leitores do Ativo.com devem também despertar dessa forma, com a ajuda de seus estimados despertadores caninos. No caso da atual campeã dos Jogos Paralímpicos dos 100m e prata dos 200m da categoria T52, essa cena cotidiana tem um fundo mais triste.

As lambidas a despertam de desmaios, que são vários ao longo de seus dias. E por esses dias serem cheios de dor, consequência de uma doença crônica, degenerativa e progressiva, Marieke pensa em dar um fim a eles, recorrendo à eutanásia após o Rio 2016.

A eutanásia, a interrupção voluntária da vida, é consentida em solo belga desde 2002. Quem a solicita deve provar ser vítima de doença incurável que provoque grande sofrimento físico e psíquico. Segundo Marieke, a documentação que embasaria o pedido ao estado já está pronta.

Marieke explicou esse quadro numa coletiva da delegação paralímpica belga, sentada numa cadeira de rodas, com um banner do Comitê Paralímpico de seu país ao fundo, e seu despertador canino e fiel a seus pés.

As declarações, obviamente, repercutiram intensamente em meios de comunicação europeus, e esse drama ecoou também no continente americano. A doença degenerativa a devasta desde que tinha 14 anos de idade, mas o diagnóstico data de 2008. Antes disso, Marieke se sagrou campeã mundial de triatlo.

A belga não se entregou e decidiu migrar do esporte convencional para o paralímpico. No ano passado, foi campeã de sua categoria no Mundial de Doha nos 100m, 200m e 400m. São os momentos de glória que fazem tudo valer a pena, até aqui.

“Quando me sento na cadeira de rodas de competição, tudo desaparece. Expulso todos os pensamentos sombrios, esmurro o medo, tristeza, sofrimento, frustração. É assim que ganho as medalhas de ouro. Todo mundo me vê com a medalha, mas ninguém vê o lado obscuro”, disse a velocista à rádio RTV-TVI.

Os Jogos do Rio serão como aquele desejo cedido a quem está no corredor da morte. “Quero terminar minha carreira no pódio. Estou treinando duro, mesmo que tenha que lutar contra a minha doença noite e dia. É muito difícil perceber, ano após ano, aquilo que já não posso fazer”.

No Engenhão, que poderá ser o último cenário de suas glórias, ela deseja competir nos 100m e 400m. Mas talvez o estádio carioca seja meramente o último cenário em que competirá, e a história pode chegar ao final sem pódio. “Há uma chance de medalha, mas vai ser muito difícil porque a concorrência é muito forte”, disse Wielemie, apelido que ganhou em seu país, e que significa algo como “a roda e eu”. De qualquer forma, as últimas provas dessa campeã serão acompanhadas por olhares atentos de todo o mundo.