Maratona abaixo de duas horas: impossível?

Atualizado em 30 de maio de 2017

O sonho da maratona abaixo de duas horas soava inatingível há 20 anos. Uma fantástica geração de africanos, porém, começou a tornar essa meta menos utópica. A história desses incríveis atletas e dessa prova mítica é dissecada no apaixonante livro do jornalista inglês Ed Caesar, Impossible — The quest for the sub-two hours marathon (Impossível – a busca pela maratona abaixo de duas horas).

Caesar revela a dimensão épica dos corredores que, além de se sacrificarem pela prova mais dura do atletismo, enfrentaram duríssimas realidades pessoais. Um dos heróis modernos da prova é o personagem principal do livro, o queniano Geoffrey Mutai — nativo Kipsigis, subtribo dos Kalenjin, povo originário do vale do rio Nilo que migrou para o Quênia, séculos atrás. O povo que simplesmente mais produz campeões mundiais e olímpicos no meio–fundo, fundo e maratona há décadas.

Mutai cresce nos anos 90 correndo descalço o trajeto casa–escola–casa, e fugindo do pai alcoólatra que o agride. Como quase todo jovem queniano, percebe que sua única chance é a corrida. Muda-se então para Skyland, um dos polos de corrida mais privilegiados do mundo: altitude elevada, clima ameno e trilhas naturais acidentadas. A ausência de treinadores ainda forja grupos que se ajudam e desafiam-se constantemente.

Além do talento e do ambiente propício, Mutai tem a genética privilegiada dos povos de sua região. Os corredores quenianos possuem pernas 5% mais compridas e 12% mais leves que, por exemplo, a elite sueca da corrida. Além de essa constituição favorecer as passadas, as pernas resfriam mais rápido, poupando energia.

Outra possível vantagem vem de uma percepção do fisioterapeuta italiano Vincenzo Lancini ao tratar de corredores tops: “Os pés dos quenianos são hipertrofiados como o torso de um fisiculturista”, fruto de anos correndo descalços e depois, já calçados, treinando em terrenos acidentados. “Os pés fortíssimos deles funcionam como trampolins.”

 

icone_pace_velocidade NA ERA DOS AFRICANOS  – ELES DOMINARAM OS RECORDES MUNDIAIS DOS ÚLTIMOS ANOS

2h04min26s
HAILE GEBRSEL ASSIE
(Etiópia) – 2007

2h03min59s
HAILE GEBRSEL ASSIE
(Etiópia) – 2008

2h03min38
PATRICK MAKAU
(Quênia) – 2011

2h03min23s
WILSON  KIPSANG
(Quênia) – 2013

2h02min57s
DENNIS  KIMETTO
(Quênia) – 2014

 

ED CAESAR DIZ QUE QUEM CORRER ABAIXO DE 2 HORAS NA MARATONA

TERÁ ROMPIDO UMA BARREIRA EXISTENCIAL

 

CIÊNCIA CONTRA O IMPOSSÍVEL

O sonho da maratona abaixo de duas horas nasce no início dos anos 80 em Tucson, Arizona. É ali que o estudante de medicina Mike Joyner investiga como o limiar de ácido lático, a economia de corrida e a capacidade pulmonar podem interferir na performance atlética. Calculando os melhores valores para essas variáveis, ele chega à marca mínima possível: 1h57min58s. O estudo, publicado no Journal of Applied Physiology, em 1991, incendeia a comunidade esportiva.

Ed Caesar segue montando o quebra–cabeça da maratona ideal ao abordar o trabalho de designers de tênis como Andy Barr — responsável pelos tênis Adidas calçados nas quebras do recorde mundial por Haile Gebrselassie e Patrick Makau em 2008 e 2011. “Pensávamos que eles queriam algo próximo de um calçado barefoot, minimalista, com menos de 100 g e pouco amortecimento. Mas era exatamente o contrário: eles precisavam de um tênis que os fizesse chegar na metade final da maratona com a menor fadiga possível”, afirma Andy. Por isso ele começou a trabalhar em modelos inversos aos minimalistas: ainda muito leves, porém mais amortecidos, volumosos e com um solado um pouco mais alto.

A EVOLUÇÃO DO TREINAMENTO

Antes do domínio dos atletas da África, o livro Impossible mostra que a revolução na longa distância começa na gelada Finlândia, na metade inicial do século 20. O lendário Paavo Nurmi e seu treinador, Lauri Pihkala, criam um padrão efetivo de treino intervalado, intercalando corridas de velocidade com longas rodagens.

O método finlandês persiste em sua essência, mas muda em grau e intensidade com outro mito: o tcheco Emil Zatopek passa a treinar um enorme volume em alta velocidade e ainda trabalha bastante a força. O resultado: três ouros na Olimpíada de 1952, nos 5.000, 10.000 metros e na maratona, feito jamais igualado.

Nas décadas de 1950 e 1960, o treinador neozelandês Arthur Lydiard reverte a filosofia e faz seus atletas rodarem muito no trabalho de base antes da velocidade. Combinando os métodos de Lydiard, Zatopek e Nurmi, entre outros, os quenianos desenvolveram seu próprio sistema. “Eles correm em geral 200 km por semana, em dois períodos e seis dias. Alguns
treinam três vezes por dia na rodagem de base. Todos dormem muito e poucos fazem reforço na academia. O sistema queniano é modelado para desenvolver simultaneamente velocidade e resistência. O que distingue os membros da elite são as sessões pesadas, como correr dez vezes 2.000 metros”, diz Caesar.

A EXPLOSÃO DA CORRIDA

Impossible continua sua narrativa destacando marcos da maratona desde os duelos de pedestrianismo (as foot-races atraíam multidões na Inglaterra e na costa leste dos EUA do século 17) às épicas disputas olímpicas, como o duelo metro a metro do italiano Dorando Pietri (seu lema era “vencer ou morrer”) e o americano Johnny Hayes em Londres 1908.

A maratona ganharia popularidade com os insanos tours de Pietri (chegou a disputar duas dezenas em provas em dois anos!), mas nas décadas seguintes o boom arrefece e no início dos anos 60 vira mera coisa de hippies nos EUA. A reviravolta começa no final da década de 1960, quando o médico americano Kenneth Cooper destaca os benefícios das atividades aeróbias no livro Aerobics.

O jogging explode na década de 1970 e os EUA apaixonam-se de novo pela prova quando Frank Shorter ganha o ouro na Olimpíada de Munique 1972. O ciclo da revolução no status da prova completa-se quando a Maratona de Nova York transforma-se de evento amador em profissional, o que ocorre em 1976 graças à visão do empresário Fred Lebow, que paga cachês (sem ninguém saber) para estrelas como Frank Shorter e Bill Rodgers.

O sucesso da prova se repete depois em Londres e Berlim, e quando cai a exigência do amadorismo (competir sem ser pago), em pouco tempo a maratona passa a atrair os atletas que fariam dessa prova a sua chance de vida: os africanos.

UMA NOVA MARATONA

Caesar retoma sua jornada de heróis ao destacar a trajetória do corredor que transforma a maratona em uma prova quase científica. De garoto que apanhava do professor e do pai e corria quilômetros entre a casa e a escola todos os dias, o etíope Haile Gebrselassie se transforma no mais cerebral dos corredores. Obsessivo pelo recorde mundial, Haile, com ajuda de um cartógrafo e de um jornalista, mapeia todo o trajeto da maratona de Berlim (a mais rápida do planeta) e elabora um mapa com os tempos que deveria cumprir a cada passagem.

Além disso, Haile coloca coelhos na prova (atletas que ditam um ritmo forte), o que lhe permite pulverizar a metade inicial da prova de Berlim em 2008 em insanos 62 minutos e bater a marca mundial. Depois dessa performance, outros tops percebem ser possível baixar suas marcas caso ataquem mais cedo. Surge então Sammy Wanjiru, jovem queniano que domina a prova alguns anos antes de sua estúpida e trágica morte (ele caiu da varanda de sua casa num aparente suicídio após discussão com sua esposa). Uma de suas vitórias inesquecíveis é o ouro olímpico em Pequim 2008. Aos 21 anos ele vence o calor, a umidade e a poluição com um tempo surreal para essas condições: 2h06min32s, e quebra o recorde olímpico em assombrosos 3 minutos.

Finalmente, voltamos a Geoffrey Mutai, o corredor que enfrentou vários dramas até perceber que só se tornaria um grande campeão se fosse mais agressivo. Emulando, segundo Ed Caesar, o estilo de antigos e destemidos frontrunners (atletas que gostam de correr na frente, enfrentando o desgaste do vento) — como o americano Steve Prefontaine —, ele desenvolve um novo estilo. “O que Mutai faz — além de adotar o novo modelo de Haile, de correr a metade inicial muito rápido — é transformar esse prólogo em uma explosão de velocidade na parte final. Assim ele muda o esporte para sempre.”

A explosão de Mutai ocorre em 2011, aos 30 anos, e começa em uma maratona sempre dura, Boston. Atacando desde o início, ele imprime um ritmo infernal e cruza a linha de chegada com 2h03min02s, fazendo a maratona mais rápida da história. A alegria logo vira frustração, pois as características da prova, como o percurso “ponto a ponto”, que pode oferecer benefícios quando o vento está a favor, não permitem que haja quebra de recordes mundiais por lá. Ele retorna desolado para a cabana que divide com três atletas em Skyland, Quênia, mas segue sua rotina de treinos selvagens, como os 18 sprints de 2 minutos com 1 minuto de jogging entre eles, perfazendo 21 km, subindo e descendo montanhas. Mesmo milionário, segue simples e focado.

Em novembro, choca o mundo de novo. Na sempre dura e solitária maratona de Nova York Mutai aniquila os rivais em uma performance extraordinária, 2h05min06s, colocando mais de 1 minuto na frente do segundo colocado e mais de 2,5 minutos abaixo do recorde da prova. Detalhe: apenas quatro homens antes dele haviam vencido Boston e NY no mesmo ano, e nenhum deles havia quebrado o recorde das duas provas.

OUTROS SEGREDOS

Impossible chega aos seus capítulos finais relatando alguns casos de doping e revelando que o DNA queniano não é uma vantagem tão determinante no sucesso deles. O que explica a dominação, segundo o cientista Yannins Ptsiladis, é uma equação maior, que inclui fatores do estilo de vida e socioeconômicos — as origens correndo descalços, a altitude, a dieta, os hábitos dos ancestrais, o desejo.

Há ainda o que Geoffrey Mutai e alguns raros outros atletas alcançam em breves momentos. Há o que Mutai chama de “Espírito” e Ed Caesar traduz como “milhares de horas de sofrimento para alcançar esses minutos de doçura: velocidade e facilidade, força e graça”.

Esse espírito iluminado, segundo Ed, deverá vir acompanhado de outra história típica, provavelmente queniana, para romper a marca das duas horas: “Quem correr a maratona abaixo de duas horas terá superado não só uma imensa barreira esportiva, mas existencial”.

Por Zé Augusto de Aguiar (Revista O2 – ed. 155, maio/16)