Promessa para Tóquio-2020, Flávia Maria treina no EspériaFoto: Promessa para Tóquio-2020, Flávia Maria treina no Espéria

Corredora atura perrengues por sonho olímpico

Atualizado em 30 de maio de 2017
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Divide a casa com quatro pessoas, acorda por volta de 5h da madrugada, usa uma verba de R$ 1,8 mil para pagar aluguel, água e luz, faz as compras no atacadão para economizar. Essa rotina, com a qual se identificam tantos brasileiros, é a da paranaense Flávia Maria de Lima, uma das raras promessas do decadente atletismo nacional.

“O atletismo acabou se tornando uma paixão que tenho. Os perrengues vêm, mas supero porque gosto do que faço”, diz a esticadora de verba curta. “Faço compras no atacadão porque Manaus é uma cidade cara”.

Os perrengues de Flávia derivam da crise econômica nacional, como explica seu treinador, Luiz Alberto de Oliveira. “A CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo) desativou o programa que nos mantinha em Uberlândia”, disse o treinador ao Portal Amazônia. “Apesar disso, depois de nos mudarmos para cá, o ministro do Esporte (na época, George Hilton), voltou atrás e ainda deu uma verba até o fim do ano para manter o centro lá, mas meus atletas não foram beneficiados”.

Luiz Alberto de Oliveira é o técnico que orientou o campeão olímpico Joaquim Cruz e o vice-campeão mundial Zequinha Barbosa. Já Flávia conquistou a medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Toronto com a marca de 2min00s40, enfrentando vento contrário. O terceiro lugar num Pan é visto por muitos brasileiros como resultado mixuruca, mas o Canadá elevou o nível do atletismo daquela competição, em comparação com edições anteriores.

A marca de Flávia na pista da Universidade de York a deixou na 44ª posição no ranking da Iaaf (Associação Internacional das Federações de Atletismo). Pode parecer pouco, mas ela está perto da fronteira dos 2min. É esse marco, parafraseando Michael Jordan, que separa as meninas das mulheres na prova de duas voltas na pista. No Engenhão, quando estiver disputando a Olimpíada, ela espera ultrapassar essa barreira. No Pan, a canadense Melissa Bishop ficou com o ouro, correndo em 1min59s62. Poucas semanas depois, no Mundial de Pequim, faturou a prata com a marca de 1min58s12.

O nível da prova baixou, em decorrência do cerco da Wada (Agência Mundial Antidoping). Várias marcas obtidas por russas e quenianas devem ser encaradas com severa desconfiança. Nesse cenário mais limpo, Flávia acha que tem boas chances de ficar entre as oito finalistas. Medalha é uma ambição acalentada para os Jogos de Tóquio-2020.

Enquanto isso, a corredora trata de lidar como pode com as adversidades. Depois da desativação do CT de Uberlândia, em meados do ano passado, Luiz Alberto optou pela transferência para a capital amazonense, solução que considerou interessante, entre outros motivos, por ser a mulher dele manauara. O casal tem também um filho natural da terra.

Concentrada nos afazeres de atleta e reservando tempo razoável para o fundamental descanso, Flávia nunca pôs os pés no Teatro Amazonas, símbolo do esplendoroso ciclo da borracha. Os pés de Flávia vivem em simbiose é com o piso emborrachado da pista de Manaus.

O calor equatorial é um dos principais adversários da paranaense da pequena e bem mais fria Campo do Tenente, no Segundo Planalto, bem perto da fronteira com Santa Catarina. Flávia ainda não se adaptou, e desconfia que talvez nunca venha a se acostumar.

“Tem dias que a chuva ajuda, mas em outros atrapalha. Um dia, fazia meu segundo tiro de velocidade quando começou a chover. No mesmo instante, levantou-se uma fumaça de vapor que simplesmente me impediu de continuar correndo”.

Mas nem tudo são perrengues na vida amazônica da meio-fundista. As frutas locais são um deleite. “Adoro açaí, e o de lá é puro”, sorri. E o melhor de tudo é o baixo preço da fruta, que não reduz tanto o minguado saldo bancário.

As frutas, porém, estão longe de ser o laço que prende Flávia tão longe, quase no hemisfério norte. Esse laço tem nome composto e sobrenome: Luiz Alberto de Oliveira.

“O Luiz Alberto me ensinou o que é o atletismo, o que é treinar. Antes eu achava que treinava, mas não treinava nada”.

Revelada em competições escolares no Paraná, Flávia foi despachada para Uberlândia por seu técnico em Campo Mourão, perto de Curitiba: Paulo Cesar da Costa logo intuiu que sua veloz e resistente corredora tinha potencial para voos mais altos.

“Quando cheguei a Uberlândia, nem sabia quem era o Luiz Alberto”, diz Flávia, que era dona de uma ignorância tão caudalosa sobre a história de sua prova como o próprio rio Amazonas. “Também não sabia quem era Joaquim Cruz”, completa, após responder mais algumas perguntas.

A corredora podia saber nada sobre as façanhas do inacreditável Joaquim, mas demonstra que boba não é. “Quando fiquei sabendo que o Luiz Alberto treinava o Joaquim Cruz, e que ele correu na casa de 1min41, logo pensei: é com esse mesmo que eu vou”. O Brasil torce para que vá longe. “O Luiz Alberto me conta várias histórias sobre os atletas que treinou. Eu as admiro, mas não vivenciei aquilo. Quero fazer a minha história para ele contar sobre mim para outras pessoas”.

Ela não descarta escrever algo histórico já no Rio. “Posso queimar etapas, sim. Podem comparar meus resultados com as adversárias, mas eu era a mais nova da prova no Pan, por exemplo. A idade conta. A Bishop tem 27 anos. Na faixa etária dela, as meio-fundistas têm mais lastro. Várias das minhas adversárias já correram algumas vezes abaixo de 2min. Eu sou bebê em termos de correr a prova em 2min baixo. Quando tinham 22 anos, minhas melhores adversárias faziam marcas parecidas com as que faço hoje”.

Com muita personalidade, Flávia não se importa com a cobrança por resultados que certamente cairá em cima dos praticantes brasileiros de atletismo no Engenhão. “Tentarei fazer o meu melhor. Se vão gostar ou não, não é comigo. E vai sair o melhor que puder apresentar naquele dia. No atletismo, nem sempre temos dias de calmaria. Uma gripe, uma mudança de clima, pode afetar um resultado” .