Maratona de Londres: superação e muito treino

Atualizado em 26 de abril de 2016
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Alex Pires sempre foi esportista. Antes de perceber o seu talento para o atletismo, ele tentou por muito tempo ser jogador de futebol. Com uma deficiência nos membros superiores (seu antebraço esquerdo é menor do que o direito), também relutou fazer parte das competições paralímpicas. Mas sempre teve um sonho: correr maratonas. Veja como foi a trajetória do atleta de 25 anos até chegar a sua primeira prova de 42 km no exterior, a Maratona de Londres.

Meu maior objetivo, desde sempre, foi ser um atleta de alto rendimento. Depois de alguns anos tentando seguir no futebol, resolvi iniciar a prática em um esporte que só dependesse de mim para ter sucesso: o atletismo.

Em meados de 2007, comecei a praticar corrida de rua nas distâncias de 5 km e 10 km. Logo nos primeiros anos, tive resultados muito bons para um iniciante e, devido a isso, achei que poderia ser um atleta de alto nível olímpico e não paralímpico, já que tenho uma deficiência nos membros.

Em 2011, no entanto, deixei o preconceito de lado e comecei a participar do Circuito Brasil Paralímpico, do  Comitê Paralímpico Brasileiro. Comecei correndo provas que eu já gostava, de 5.000 e 10.000 metros rasos. Mas resolvi experimentar, por curiosidade, os 1.500 metros rasos, que, nos anos seguintes, passaram a ser meu principal objetivo no atletismo.

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Depois de alguns anos correndo essa distância, e de três medalhas no mundial Paralímpico de Lyon (2013) — sendo duas de prata (1.500 e 5.000 metros rasos) e uma de bronze (800 metros rasos) –, em 2014, resolvi me aventurar e fazer minha estreia em maratonas, meu grande sonho.

Nada melhor que começar pela Maratona de São Paulo, na Copa América de Maratona do Comitê Paralímpico Internacional (IPC), quando corri em 2h45min com apenas cinco semanas de treinamento específico. Com o resultado, garanti uma vaga entre os cinco primeiros do ranking mundial na classe T46 (Deficiente Membro Superior), o que fez com que eu tivesse classificação para a Maratona de Londres, em 2015, para o Campeonato Mundial de Maratona do IPC.

Os treinamentos para Maratona de Londres começaram em clima de festa, pois logo no começo do ano fui convocado para integrar a Seleção Brasileira no camping de treinamento em altitude em Guarne, na Colômbia. Lá, treinei por três semanas a 2.150 metros de altitude. Depois de passar por uma das melhores preparações que já fiz, fui para Londres em 20 de abril. Nos dias que antecederam a prova, fiz rodagens leves. E quando chegou o grande dia, um domingo (26 de abril), tive pique total.

Essa data vai ficar marcada na minha memória para o resto da minha vida. Acordei às 4h30 da manhã, horário de Londres, terminei de me arrumar e fui tomar café da manhã com meus companheiros de seleção. Fazia muito frio, creio que tenha sido o dia mais gelado de toda a minha estadia em Londres. Mesmo assim, saímos às 6h15 da manhã rumo à largada da Maratona de Londres. Eu estava um pouco tenso e minha única certeza, naquele momento, era que independente do resultado final da prova, eu faria o meu melhor por estar bem treinado.

Quando fui chamado para a largada, já estava perto de soar o ponto para o inicio da prova. Eu saí muito próximo dos líderes, dois deficientes visuais, um de Marrocos e outro da Espanha. Mas, longo em seguida, entrei no ritmo que havia estipulado para os 42 km e os dois atletas foram embora. Neste pequeno intervalo, dois corredores da classe que pertenço (T46) se aproximaram de mim. Novamente um marroquino e um espanhol, assim como outros três atletas com deficiência visual. Fomos boa parte da prova juntos, um ditando o ritmo para o outro, sem perder o foco e a concentração na prova. A emoção só aumentava, pois tinham muitas pessoas nas ruas torcendo e gritando.

Por volta do quilômetro 19, o atleta do Marrocos ficou para trás. A confiança foi aumentando e perto do quilômetro 22 percebi que mais um atleta havia se afastado do grupo. Era o Espanhol da minha classe. No quilômetro 30 o atleta espanhol voltou correndo forte, na tentativa de tirar a diferença. Mas continuei no mesmo ritmo, principalmente porque desde o quilômetro 12 estava com dores musculares na região do glúteo. Infelizmente, mesmo mantendo um bom ritmo, no quilômetro 32 o espanhol me alcançou e fomos juntos por cerca de 1 km, mas deixei que ele abrisse. Ao chegar ao quilômetro 36, percebi que não estava tirando a diferença, então comecei a correr mais forte. Mesmo assim, ele continuou bem e acabei fechando a prova em segundo lugar na minha classe, com o tempo de 2h27min36s.

Fiquei muito satisfeito com o resultado. E agora é treinar e focar nos 1.500 metros rasos do Mundial de Atletismo, em Doha (Catar) lincar, que rola em outubro.

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