Madagascar: "Não consegui segurar as lágrimas"

Atualizado em 27 de abril de 2016
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No último dia, as lágrimas escorreram sem parar e jamais vou esquecer a sensação: um misto de felicidade e orgulho por ter conseguido ir até o fim, sem desistir. Afinal, foram sete dias correndo para superar 250 km de autossuficiência na Ilha de Madagascar. Considerada a maior do continente africano, a ilha foi o cenário escolhido pela 4 Deserts para realizar a sétima edição da Roving de Racing the Planet, entre os dias 31 de agosto e 06 de setembro.

Minha 12ª ultramaratona em ambientes extremos marcou também 21 anos de carreira que não poderiam ser comemorados de melhor forma. Vivi momentos de muita emoção. Percorri trilhas de pedras e areia, plantações de arroz, com direito a ficar atolado na lama. Cruzei diversos rios, subi e desci canyons e longas savanas. Praias paradisíacas e florestas de Baobás também estavam no roteiro.

Preparei-me durante um ano para realizar o sonho de correr em Madagascar. Os treinamentos incluíram rotinas com fisioterapeutas que fizeram um trabalho de fortalecimento, equilíbrio e resistência para evitar lesões. Corri nas montanhas de Atibaia e nas praias do litoral sul da Bahia. Para complementar, corri em esteiras com a meta de preservar meu corpo e poder enfrentar as variações de terreno da ilha.

Na bagagem itens leves e indispensáveis que garantiram minha segurança na trilha e itens que doei para comunidades mais carentes na ilha: três lanternas, dois canivetes, quatro camisetas, sete meias, dois bonés, dois óculos, dois pares de tênis. O cardápio incluía comida liofilizada, além de 12 barras de chocolate, vários torrones e rapadura.

Madagascar não sairá da minha mente, esperei para conhecer essa ilha magnífica desde a minha infância. Sempre ouvi falar da musicalidade e das belezas naturais desse lugar encantador. Encontrei um país de muitos contrastes e identifiquei problemas e belezas semelhantes aos do nosso Brasil.

Paraíso para os amantes da vida selvagem, Madagascar impressiona com seu território coberto por floresta tropical, dezenas de espécies de árvores, plantas e lêmures, além de praias paradisíacas, ideais para a prática de caminhadas. Na capital, Antananarivo, o turista pode desfrutar dos melhores bares noturnos que convivem ao lado de muita pobreza e poluição. Trânsito pesado, buzinas e comércio ambulante também marcam o território. Todos querem vender tudo o que têm nas mãos e quando não têm, pedem dinheiro sem cerimônia.

Em muitos momentos me senti impotente diante de tanta gente a beira da miséria. Trabalhei minha mente para que meus passos não fossem apenas em busca da medalha em si, mas, sim, a melhor das medalhas, proporcionar sorrisos por onde eu passasse. Corri agradecendo cada abraço, cada sorriso e cada olhar de um povo que vive isolado no norte da maior ilha da África, enfrentando uma realidade duríssima, mas que não deixa de sorrir e ser gentil, eu corri dedicando o último dia ao povo Malagasy.

Nesta edição da racingtheplanet tive a honra de correr com os brasileiros que representaram com muita excelência a nossa bandeira, entre eles, o atleta Marcelo Musial, que fechou a prova entre os 50 melhores; Michael, de São Paulo; Jane Carvalho, de Salvador; Mayra Jonhson; que mora na Índia; Morten Helberg, do Rio de Janeiro; e Monica Otero, de São Paulo.

Ao cruzar a linha de chegada me emocionei ao ver uma cidade inteira nos aplaudindo. Peguei a bandeira brasileira que me acompanha há 21 anos e comemorei com meus amigos atletas de várias partes do planeta uma vitória particular que dedico ao meu filho, Vinicius Dias.

Carlos Dias é ultramaratonista brasileiro, já correu nos quatro desertos mais extremos do planeta (Antártida, Gobi, Saara e Atacama). Cruzou os EUA de leste a oeste. Circulou o mapa brasileiro (18.250 km) em 325 dias. Correu no lugar mais alto do planeta – o Nepal. Também correu 24 horas nas 26 capitais mais o Distrito Federal. Recentemente correu 12 horas nas 12 cidades sede da Copa do Mundo.

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