Correr na Ilha de Páscoa pode mudar uma vida

Atualizado em 20 de setembro de 2016
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Se existe um lugar rodeado por mistério neste mundo, este lugar é a Ilha de Páscoa. Esta pequena ilha no meio do Oceano Pacífico está localizada a 3.500 km a oeste de Santiago do Chile, sendo em todo o planeta o ponto mais distante de um continente. Durante séculos, seus habitantes viveram completamente ilhados do resto da humanidade, formando uma cultura com aspectos únicos. Hoje, cerca de 900 moais, gigantescas estátuas tradicionais construídas em pedra maciça distribuídas por toda a ilha, são seu vestígio mais chamativo.

Por não contar com uma tradição escrita, muitos dos segredos de seus ancestrais foram se perdendo e, por isso, não há explicação para muitas coisas. Sobre os moais, a versão mais difundida diz que eram construídos para abrigar os espíritos dos antepassados. Lá de cima podiam ver tudo e proteger a população de qualquer mal. Por este motivo, todos os moais olham para dentro da ilha nem direção de onde estão os habitantes, e não em direção ao mar.

Sempre dizemos que todas as corridas são diferentes, e é verdade. Mas correr neste cenário é definitivamente algo único. “Esta é uma prova 1.000% mística do começo ao fim”, antecipava Rodrigo Salas, organizador da maratona. “Ninguém que tenha corrido aqui volta igual para casa. Os atletas que passam por esta corrida voltam mudados, com outra energia, com uma atitude positiva perante a vida”, completa.

De minha parte, nunca fui uma pessoa religiosa neste sentido, e por isso escutei suas palavras com certo ceticismo e me preparei para a primeira das três provas que acontecem ao longo do mesmo fim de semana. São três provas independentes entre si, ou seja, cada atleta pode optar por correr somente uma delas, ou combiná-las como quiser. Quem decidir realizar as três jornadas, participa do chamado “Troféu Rapa Nui”, que entra em um ranking de pontos da premiação especial.

Na primeira sexta-feira do mês de junho é disputado o triathlon de acordo com as distâncias opcionais: um sprint (750 metros de natação, 20 km de ciclismo e 5 km de corrida) e um meio Ironman (1,.9 km, 90 km ey 21 km). As duas provas são disputadas simultaneamente com largada e chegada na praia de Anakena, um lugar carregado de muito misticismo (como toda a ilha), uma vez que se acredita que foi neste lugar que desembarcaram os primeiros habitantes. Além disso, o lugar é verdadeiramente paradisíaco: águas totalmente cristalinas e areias brancas em uma pequena baía rodeada de palmeiras digna de cenário de Hollywood em filmes de náufragos. E atrás, um altar com sete moais vigiam e protegem o lugar. Nada pode dar errado.

A segunda jornada, no sábado, consiste em uma competição de mountain bike. Também há duas distâncias para optar: 35 km e 70 km. A prova mais longa é um tour autêntico, pois os bikers passam por toda a ilha fazendo um giro completo, dando a volta na orla e conhecendo os pontos panorâmicos mais espetaculares, como o altar dos 15 moais e o vulcão Rano Raraku, também conhecido como a pedreira onde se fabricavam os moais. Nas duas distâncias, a dificuldade técnica do circuito é baixa, e inclusive uma boa porcentagem do caminho é sobre a estrada de asfalto. Em alguns caminhos, é necessária muita paciência, porque quando tem que subir, é muita subida.

Para a jornada final, o desafio é a maratona, com um evento principal de 42 km, ao qual se somam uma meia-maratona e uma prova de 10 km. Embora seja a corrida com mais participação da trilogia, está longe de ser uma competição de massa, juntando uns 300 atletas entre as três distâncias. E assim prefere Salas, o criador da corrida. “Quem vem aqui procurando marcar seu melhor tempo, ou uma corrida como o resto das maratonas do mundo, está completamente enganado. Aqui não se corre rápido, seja pelo relevo, pelo vento, ou pela chuva. Esta é uma corrida para desfrutar, para sentir, para vivê-la. As pessoas que entenderam desta forma voltaram felizes e mudadas para suas casas”, garante ele.

Depois de percorrer a maior distância, e já passados dois dias de competições, confesso que meu ceticismo foi perdendo força neste lugar. Ou melhor dizendo, foi perdendo bastante de sua força. Passando pelo km 10, os corredores da meia-maratona voltam e nós maratonistas começamos a empreender uma espécie de longa peregrinação pela estrada reta (a única) que atravessa a ilha de ponta a ponta, unindo o povoado de Hanga Roa com a Praia dos Ancestrais, Anakena. Estes quilômetros passam na solidão dentro da solidão, uma pessoa é um pequeno ponto dentro de uma ilha, que porem sua vez é um pequeno ponto dentro do oceano. E, acreditem em mim, isto se sente por dentro. E não é qualquer estrada, é a estrada onde tudo começou, é voltar ao passado, às origens, no mais profundo dos silêncios.

Sozinho, correndo por uma estrada que termina no mar. Ali há muito tempo para pensar em muitas coisas, sendo quase inevitável fazer isso. E se sobrou alguma coisa para pensar, uma vez que chegue ao ponto de retomada, ainda restam 21 km de volta para seguir pensando.

Você já voltou ao seu passado, se conectou-se com ele, e está de volta ao seu presente, planejando seu futuro, planejando sobre quem quer ser. Isso é correr na Ilha de Páscoa, e acredito que seja o mais parecido a uma religião, que nos conecta com nossa essência, com o que realmente somos. “Há muitas pessoas que fazem esta corrida como uma forma de retiro. Mas não como um retiro de sofrimento, mas como um de alegria, de encontro com você mesmo correndo”, disse Salas. E agora, depois de ter passado por esta experiência, acredito nisso.

Quanto custa correr na Ilha de Páscoa?

Se agendados com tempo, os processos de compra de passagem para ida e volta a partir de Santiago para a Ilha de Páscoa podem ser feitos por uma média de US$ 350. A, a este valor deve-se somar o custo de viagem para a capital chilena, que varia de acordo com a cidade onde você se encontre, mas não costuma ser muito alto. As inscrições para a corrida não são baratas, mas valem a pena pelo o que esta experiência significa esta experiência. Participar de somente um dos três eventos custa US$ 400, mas se a inscrição é para as três provas, o valor final para todo o pacote é de US$ 700. Outro dado interessante é que não é necessário transportar a bicicleta, já que na ilha há várias opções para alugar mountain bikes. Seus valores vão desde US$ 12 ais US$ 18 por dia, dependendo dos modelos, contando que todas as bicicletas estão aptas para competir.

Prova: Papa Nui Marathon
Data: 05/06/2015
Nº de corredores: 300
País: Chile
Clima: 22°Cº Graus

(Relato por Leonardo Mourglia)