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Cego completa Maratona de Porto Alegre em 3h31. E poderia ter ido melhor

Atualizado em 19 de junho de 2018
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10,2 mil pessoas participaram da Maratona de Porto Alegre no último dia 10 e, apesar da chuva, passaram por alguns dos pontos mais bonitos da capital gaúcha, como a orla do Rio Guaíba e o Centro Histórico. Um participante, no entanto, percorreu os 42 km sem ver absolutamente nada. A falta de visão não impediu que Alexandre Rosa, de 38 anos, curtisse a prova e lutasse por um bom tempo. Guiado pelo capitão do Exército Diogo Santos, este morador de Alegrete, cidade localizada a 500 km de Porto Alegre, completou o trajeto em 3h31min49s. Ao final da prova, notou que houve uma espécie de inversão de papéis com seu guia: sem sentir o cansaço, era Rosa (na foto, à esquerda) que dava suporte a Santos (à direita), esgotado em sua primeira maratona.

“Foi a terceira vez que disputei a Maratona de Porto Alegre. Para o Diogo, foi a primeira vez. Por ser militar, eu já sabia que ele teria um bom preparo psicológico, mas nunca sabemos como vai ser na hora da prova. Nos últimos 10 km, ele cansou bastante. Tivemos que dar uma diminuída. Eu não poderia ir sem ele, então tive que motivá-lo, incentivá-lo. Ele chegou quase sem poder caminhar, apoiado no meu ombro, como se eu o estivesse guiando [risos]. Eu tinha gás para concluir a prova em 3h23min ou 3h24min”, lembra Rosa, que perdeu a visão aos 13 anos de idade.

Há cinco anos, Rosa trocou o samba nas madrugadas do interior gaúcho por um estilo de vida mais saudável, baseado em corrida e boa alimentação. “Nós vamos ficando velhos e a noite vai perdendo a graça”, conta, rindo. Ex-músico profissional na região de Alegrete, ele deixou de lado o cavaquinho para se dedicar ao esporte e provar que o deficiente, apesar das limitações, pode levar a vida naturalmente. Saíram as apresentações em casas noturnas e entraram os treinos de corrida logo nas primeiras horas do dia.

“Comecei a correr para incentivar outras pessoas, para mostrar que, mesmo sendo deficiente visual, é possível praticar esportes e ser um atleta competitivo. Muitas das pessoas só percebem as limitações que a deficiência traz. Eu não penso assim. Busco aproveitar a minha vida e ver o lado positivo das coisas”, afirma.

 

 

Rosa acostumou-se a fazer alguns “malabarismos” para treinar em Alegrete. Ele recebe as planilhas de uma assessoria esportiva de Porto Alegre e se desdobra para encontrar maneiras para fazer suas rodagens. Como seu ritmo na corrida é forte, nem sempre os guias conseguem acompanhá-lo, como aconteceu na Maratona de Porto Alegre. É aí que surge a criatividade para que a planilha não seja furada. Ele já chegou a recorrer a Rossana, sua esposa, para poder treinar. Rossana monta em sua moto e, com a guia em mãos, orienta as passadas do marido pelas ruas de Alegrete. Segundo ele, vale tudo para não perder um treino.

“Se eu tenho o treino para fazer e não faço, fico indignado, de mau humor. Tenho que fazer o treino de qualquer jeito”, acrescenta, lembrando que a esteira é sempre uma opção quando não há uma pessoa para conduzi-lo.

Mesmo sem enxergar nada das provas que disputa, Rosa sente a atmosfera competitiva da corrida como grande combustível para seguir se desdobrando para treinar e alcançar as metas que traça.

“A corrida me traz uma satisfação plena, tanto por treinar quanto por completar provas e atingir metas. A competição me estimula muito. Me faz querer ser melhor que eu mesmo e que os outros competidores que estão disputando comigo. Isso me motiva sempre.”