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Cada maratona Major é uma festa a ser comemorada

Atualizado em 31 de agosto de 2018
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Imagine correr uma maratona Major, um lugar lindo, meio plano, meio friozinho, com um monte de gente desconhecida te aplaudindo e dando coisinhas para você comer. O percurso parece que foi milimetricamente escolhido: há quase nenhum desnível ou buraco.

Os postos de hidratação estão exatamente onde você mais sente sede e não no começo de uma subida. Não raro, a organização te oferece frutas variadas, isotônico e água gelada. O sujeito que chega em último lugar ganha praticamente as mesmas honrarias do campeão.

Este lugar existe e não é só um, são seis: Chicago, Londres, Boston, Nova York, Berlim e Tóquio. Até agora, o capitalismo só colaborou para eu fazer uma delas — a maratona de Nova York.

Mas, como não sou boba nem nada, corri essa prova duas vezes, em 2015 e 2017. Se eu tivesse dinheiro, faria essa prova todo ano. As outras sei que são igualmente maravilhosas de tanto ouvir falar.

Os organizadores tomam o cuidado de pecar pelo excesso e te explicam tudo — tudo mesmo — já no site. Ali, no ambiente on-line, você já fica enamorado pela prova. A prova em si é outro banho de organização.

Há praticamente um voluntário para cada corredor. E, acredite, eles são felizes e estão ali pelo prazer (ou disfarçam bem). Assobiam para você, gritam, olham no fundo dos seus olhos.

Uns tem 20 e poucos anos. Outros muitos têm mais de 70 e ainda correm. Como toda maratona major está no alvo de gente do mundo todo, a prova vira uma imensa Torre de Babel.

O que eu vi lá e nunca tinha visto por aqui: corredores fantasiados e correndo em homenagem a outras pessoas. Os fantasiados tornam uma prova dura, de 42.195 metros, mais leve.

Mas não vá atrás deles: eles estão usando fantasias, mas não raro correm pra burro. Correm muito. São sub-qualquer coisa e vão bater o recorde pessoal, ainda que estejam vestindo roupa de bailarina ou a máscara e a capa do Batman.

Como? Não faço ideia, porque eu, usando tudo o que a regra manda, corro como uma pomba desengonçada e lerda. E tem o pessoal que corre por alguém.

Nunca vou esquecer o senhor com a fotografia de um moço na camiseta e os dizeres “Saudade do meu filho, morto na Guerra do Golfo”. E vi vários e vários americanos agradecendo aquele pai.

Fora os que correm em nome de quem se livrou de uma doença grave — muitas vezes são os próprios corredores. O único defeito de uma maratona major é o custo. Cotei a de Tóquio no ano passado e desisti na terceira linha do e-mail.

Sem chance, porque tirando as seis noites do baita evento, ainda tenho 359 dias de supermercado no Brasil. Por mais jeitinho que se dê, sempre é uma viagem internacional, a euro, dólar, iene, libra… socorro!

Em setembro vou fazer minha próxima major: Berlim. Devo começar a chorar ali pelo km 1 e só parar no 42. Bater recorde? Fio, fia, estarei em Berlim!

Quero olhar na alma de cada voluntário, dar tchau para todos os paramédicos e cumprimentar todos os pais que perderam o filho em guerras. Porque a maratona major é uma festa.