O Acidente - Parte 1

Atualizado em 15 de março de 2007
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Quedas e tombos são comuns a todo praticante de ciclismo, mas há algumas que são inesquecíveis. Tombos que renderiam história para um filme com muita ação, tragédia e até comédia. Pois é, eu passei por uma destas quedas. Um tanto trágica e cômica também.

Tinha apenas 17 anos, freqüentava a Faculdade de Educação Física e fazia o traslado casa-faculdade de bike – 60 quilômetros diários.

Em uma segunda feira, voltando pra casa a cerca de 36 km/h, desfruto de uma prazerosa descida, solto as mãos do guidão para ajeitar a mochila nas costas e, de repente, um estalo. Não tive tempo para fazer nada. Quando me dou conta, estou sentado na roda traseira, pulando e freando a bike com as nádegas. Foram muitas pancadas na roda traseira, até ela parar e eu poder avaliar o que estava acontecendo. Percebi que estava com o short inteiro rasgado, com a bunda à mostra, praticamente “pelado”.

O pequeno e traiçoeiro parafuso que segura o banco quebrou e foi o motivo do estrago. A roda traseira estava completamente destruída. Foi “perda total”. Sentia, no entanto, que minhas nádegas estavam ainda em piores condições. Doía demais. Naquele momento, não conseguia pensar no parafuso ou na roda. Precisava de ajuda rápido. Era uma cena simultaneamente patética e trágica. Estava com o short esfacelado, praticamente pelado, e com o machucado sangrando bastante.

Fui à farmácia logo ali ao lado, o funcionário que tinha assisto à queda, ofereceu-me ajuda. Eu andava com dificuldades. Resolvemos avaliar o tamanho do estrago. Como mostrar a ele? Mais uma vez, foi patético. Eu em uma posição nada confortável, olhando para trás para interpretar a expressão no rosto dele. O rapaz franzia a testa e não parecia gostar do que via:
– Nossa! Não posso fazer nada por você. Vá logo a um hospital. A coisa está feia.

Imaginem o que passou pela minha cabeça. Liguei pra meu irmão, e após alguns minutos de espera, lá estava ele junto com a minha mãe. Que alívio. Estava desesperado, as dores pareciam aumentar a cada minuto.

Sentar? Nem pensar, deitei-me no banco de trás e fomos até o hospital mais próximo, agora já vestido. “Um médico, por favor”, gritei ao chegar. Rapidamente, fui levado a uma sala onde um médico fez o que eu mais desejava: amenizou meu sofrimento – com bastante Xilocaína.

O médico aconselhou minha mãe a ir pra casa e voltar mais tarde, com algumas roupas. Eu teria que passar por cirurgia. Senti que ele sutilmente me poupara de algumas informações. Devia estar com pena de mim. Não é todo dia que acontecem acidentes como este.

Fui levado para uma sala onde seria preparado para a cirurgia. Eram mais de 30 pessoas no cômodo, mas apenas um de bumbum pra cima. Impressionante como esse detalhe despertou a curiosidade de todos – médicos, enfermeiros, auxiliares. Em alguns minutos, eu era a sensação do hospital. A abordagem das pessoas era basicamente a mesma, “o que aconteceu com você?”. Depois de uma breve explicação, surge a segunda pergunta:
– Posso ver?

A reação das pessoas não variava muito:
– Nossa! Que estrago, hein!

Foi assim durante a tarde inteira. Em seguida, o enfermeiro, que me prepararia para a cirurgia, examinou-me e foi logo dizendo:
– Eu vou rapar tudo viu. A anestesista é muito exigente.

Retruquei, de prontidão:
– Como assim raspar tudo? Na frente não aconteceu nada.

Nem ouviu o que eu disse e foi já se preparando para seu trabalho. Abalado psicologicamente, falei para ele fazer o que tivesse que ser feito. Alguns minutos depois, porém, informou-me de que seu turno havia terminado e outra pessoa me atenderia. Ainda bem. O novo enfermeiro contou que a raspagem seria somente no local lesionado e nada mais. Por um segundo quis esganar aquele x@m*l#c%mz@o , mas ainda bem que já tinha ido embora.

Começava ali a segunda parte da história, a Cirurgia.

Continua……..

Kim Cordeiro é Diretor Técnico da BKsports Assessoria Esportiva,
triatleta, especialista em ciclismo e escreve ao Prólogo no dia 15 do mês. kim@bksports.com.br