Ande para correr

Atualizado em 17 de agosto de 2007
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Por Marcos Caetano

A grande marcha começa com o primeiro passo. Muitos são os atletas que iniciaram suas trajetórias com pequenas e esbaforidas caminhadas, passo após passo. Não me refiro aos atletas de ponta, que começaram a treinar tão jovens que talvez nem se recordem como foi que aconteceu, mas aos corredores de rua, amadores no sentido mais puro da palavra: aqueles que fazem algo por amor e devoção, sem esperar nenhum tipo de recompensa material.

Para quem deseja correr por amor, sem­pre é hora de começar, sempre há tempo, sempre é possível. Basta ter vontade de dar o primeiro passo.

O primeiro passo é sempre o mais difícil. Se procurarmos desculpas para não dar esse passo, certamente as encontra­remos. Excesso de trabalho, falta de trabalho, clima seco, clima úmido, frio, calor, acordar cedo é difícil, dormir tarde é cansativo, treinar à noite é chato, treinar de dia cansa, tenho um cachorro, tenho pé chato, não tenho tênis, meu tênis aperta…

Procure uma justifi­cativa para não começar e você certamente a encontrará. Eu mesmo sou capaz de escrever um livro intitulado “As Mil Consagradas Desculpas para se Fugir de um Treino”. Entretanto, se você vencer sua própria acomodação e der o primeiro passo, descobrirá que esse passo, que é o mais difícil, também é o mais gratificante.

Conheço gente que começou a correr quando era obesa. Gente que mal podia andar, deu os primeiros passos pensando apenas em emagrecer um pouquinho, pegou o gosto pelo tra­jeto no parque, passou a dar umas corridinhas entre as cami­nhadas, alternou corrida com caminhada e, finalmente, passou a correr de verdade. Alguns correram mais forte e acabaram magros, enquanto outros correram mais tranqüilos e continua­ram um tanto cheinhos. Cheinhos, sim, mas um corredor cheinho também é cheio de saúde e disposição.

Conheço gente que começou a correr por recomendação médica. Gente que resolveu correr não quando estava saudável, mas quando estava chumbada, em processo de recuperação. Fisioterapia talvez tenha sido o motivo inicial. Caminhadas para melhorar a condição cardíaca; para recuperar tendões estro­piados e reconstruídos; para auxiliar na circulação; para curar o estresse. Terapia. Essas pessoas também começaram com o primeiro passo, tornaram-se caminhantes e acabaram correndo. Curiosamente, ficaram mais saudáveis depois da doença.

Conheço gente que tinha o físico perfeito, esculpido em horas e horas semanais numa sala de musculação, mas que não conseguia subir uma escada sem ter a impressão de que o coração lhe saltaria pela boca. Gente com barriga de tanquinho, mas que descia do avião em uma cidade de grande altitude e quase precisava ser levada a um balão de oxigênio. Pessoas que, de tanto experimentar aquele monte de aparelhos das academias, acabaram se atrevendo a subir em uma esteira para uma caminhadinha. Aí, foram apertando aquelas setinhas para cima que aumentam a velocidade do aparelho e, quando se deram conta, já estavam correndo. Alguns trocaram a academia pela luz do sol, enquanto outros, animais de cativeiro habituados aos fitness centers, acabaram ficando por ali mesmo. Mas o fato é que todos viraram corredores.

Conheço gente que aprendeu a andar com um ano de idade, a pedalar aos sete e a correr só depois dos 70. Achando-se velhinhos, começaram cami­nhando. Mas quem disse que vovôs não podem correr? Mesmo depois dos 70, um passo leva a outro, um passo mais apressado leva àquela corri­dinha de vovô e, quando menos espera, o vovô está correndo mais do que o netinho. E o netinho agradece, claro, pois um vovô corredor tem enormes chances de ser bisavô – e quem sabe até tataravô.

Não importa se você é jovem demais, velho demais, magro demais ou gordo demais: você pode correr. Entretanto, você não precisa tomar a decisão de começar a correr, assim, de repente, em um ato de exacerbada macheza (ou “femineza”). Tome apenas a decisão de dar o primeiro passo. A decisão de andar. Se você tomar gosto pela caminhada, se caminhar com cons­tância, com perseverança e cada vez mais forte, será apenas uma questão de tempo até você chegar à corrida.

Se tudo der errado e você não chegar a correr nunca, se ficar só nas caminhadinhas, andando você estará bem melhor do que sentado. Entre uma boa caminhada e ficar no sofá operan­do o controle remoto da TV, a caminhada é bem melhor.

A vida está lá fora, amigo leitor. Corra atrás dela. Ou melhor: comece andando atrás dela. E, depois, corra.

Marcos Caetano é jornalista, colunista esportivo do “Jornal do Brasil” e de “O Estado de S. Paulo” e comentarista da ESPN Brasil.